Foto Reprodução Instagram

O encontro entre moda e automobilismo ganhou uma interpretação pouco óbvia durante a Monterey Car Week. A Louis Vuitton e a Singer, atelier californiano conhecido por restaurar e reinterpretar Porsche 911 clássicos, apresentaram em Pebble Beach dois automóveis desenvolvidos em conjunto. Um deles leva diretamente o olhar de Nicolas Ghesquière, diretor artístico das coleções femininas da maison, para um 911 Classic Turbo cabriolet.

Mais do que aplicar logotipos a um carro já existente, o projeto atravessou materiais, interiores, instrumentação, bagagem e até o guarda-roupa pensado para acompanhar cada veículo. A colaboração também marca a primeira vez em que a Louis Vuitton assina um item co-branded, segundo a Singer.

Curiosamente, tudo começou em uma escala bem menor. A Singer procurou a Louis Vuitton para desenvolver um relógio removível para o painel, inspirado no Tambour. Produzida pela La Fabrique du Temps Louis Vuitton, na Suíça, a peça acabou abrindo caminho para uma intervenção muito mais ampla. Os mostradores, comandos e diferentes elementos funcionais também passaram pelo olhar das equipes das duas casas.

Um cabriolet entre Paris, Califórnia e o universo náutico

O carro que leva a assinatura criativa de Ghesquière é o Porsche 911 Reimagined by Singer – Classic Turbo, construído a partir da arquitetura da geração 964 e transformado em um cabriolet de carroceria de fibra de carbono.

A tonalidade Calcaire Lutétien faz referência ao calcário claro que caracteriza parte da paisagem arquitetônica parisiense. Madeira, couro natural e detalhes dourados completam a composição. Já a inspiração para o interior veio dos clássicos barcos a motor, referência que aparece especialmente no compartimento traseiro revestido em madeira envernizada e em outros elementos do acabamento.

A escolha por um conversível também não aconteceu por acaso. Apaixonado por automóveis, Ghesquière imaginou um carro mais aberto à paisagem e ao estilo de vida ao ar livre da Califórnia. Sua relação com esse universo, aliás, antecede a colaboração: automóveis já apareceram em diferentes momentos de seu trabalho para a Louis Vuitton.

Sob a carroceria está um motor 3.8 litros, seis cilindros boxer e biturbo, com até 510 cv, combinado a um câmbio manual de seis marchas e tração traseira. Apesar da intervenção estética extensa, Singer e Louis Vuitton buscaram preservar a funcionalidade e as características de condução que orientam os projetos do atelier.

Do Tambour à bolsa Noé

Alguns dos detalhes mais interessantes aparecem dentro do carro. O relógio mecânico ocupa o centro do console e pode ser retirado para funcionar como relógio de mesa. Logo abaixo, o acabamento da alavanca de câmbio faz referência à silhueta da bolsa Noé, com construção em couro e cordão.

Ghesquière também criou uma cápsula exclusiva para acompanhar o cabriolet. A seleção inclui terno sob medida em seda de paraquedas, luvas de direção, tênis, óculos, capacete e um Tambour Automatic de 40 mm em cerâmica e ouro amarelo, além de versões de bolsas como Alma, Noé, Cruiser e Petite Malle. Materiais e tonalidades conversam diretamente com o interior do automóvel.

Um segundo 911 olha para os arquivos da Louis Vuitton

O outro carro apresentado em Pebble Beach segue uma linguagem diferente. O Porsche 911 Reimagined by Singer – Classic aparece em açafrão, azul-cobalto e amarelo, combinação que recupera códigos históricos da Louis Vuitton e faz referência, inclusive, a baús desenvolvidos pela maison para a Citroën em 1924.

Nesse modelo, a ideia de viagem aparece de maneira ainda mais explícita. Um bagageiro no teto pode receber baú, prancha de surfe ou par de esquis, enquanto o interior incorpora couro inspirado no tradicional VVT da maison. O desenho acolchoado dos bancos remete ao malletage encontrado no interior dos baús Louis Vuitton, e pequenas flores do Monogram surgem até nas perfurações de ventilação dos assentos.

Mecanicamente, o coupé traz motor 4.0 litros aspirado e refrigerado a ar, câmbio manual de seis marchas, tração traseira e freios de carbono-cerâmica.

Uma relação com carros que começou há mais de um século

Embora o projeto pareça um movimento novo, a ligação da Louis Vuitton com o automóvel acompanha a expansão das viagens motorizadas desde o fim do século XIX. Já em 1897, Georges Vuitton oferecia baús criados especificamente para carros. Em 1909, Pierre e Jean Vuitton, netos do fundador, chegaram a desenhar um automóvel sobre um chassi esportivo da Stabilia para apresentar as criações da maison. Décadas depois, a marca promoveria concursos de elegância e rallies de carros clássicos.

Os dois 911 apresentados agora retomam justamente essa história, mas por outro caminho. Em vez de pensar apenas na bagagem que acompanha o automóvel, Louis Vuitton e Singer transformaram o próprio carro em parte da experiência de viagem, aproximando marroquinaria, relojoaria, moda, engenharia e design em um mesmo objeto.

Os valores dos dois modelos exclusivos não foram divulgados.

 

Fotos: Reprodução Instagram

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