Nascida em Porto Alegre e criada no Havaí, Tatiana Weston-Webb construiu uma trajetória marcante no surfe brasileiro. Vice-campeã mundial em 2021, medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e uma das principais atletas da elite do esporte, a surfista vive agora um novo capítulo da carreira. Após uma pausa no circuito em 2025, tornou-se mãe de Bia Rose em 2026 e, ainda neste ano, começou a retomar gradualmente a rotina de treinos e competições, incluindo seu retorno à etapa da WSL nas ondas de Saquarema. Para 2027, Tati já tem presença garantida novamente no Championship Tour da WSL, em um movimento que também representa um avanço para mulheres que desejam conciliar maternidade e esporte de alto rendimento.

Em entrevista exclusiva ao Glamurama, fala sobre a experiência de se tornar mãe, os desafios de conciliar maternidade e esporte de alto rendimento, a preparação para voltar ao circuito mundial e a relação com o próprio corpo depois da gravidez.

Você sempre viveu uma rotina muito intensa de treinos, viagens e competições. Como a maternidade transformou a sua relação com o esporte e com a própria rotina?

A maternidade mudou bastante a minha perspectiva. Antes, o surfe ocupava praticamente todos os espaços da minha vida e eu estava sempre muito focada em melhorar como atleta. Hoje, continuo sendo competitiva e dedicada ao esporte, mas tenho uma motivação diferente. A Bia me ensinou a estar mais presente e a valorizar mais cada momento. Também passei a respeitar melhor o meu tempo e a entender que meu corpo passou por uma grande transformação. Voltar ao esporte depois de ser mãe é descobrir uma nova versão de mim como atleta, e tem sido muito especial viver esse processo.

Ser mãe e atleta de alto rendimento ainda é um desafio cercado de expectativas e cobranças. O que você gostaria que mudasse na forma como a sociedade olha para mulheres que decidem continuar suas carreiras esportivas depois da maternidade?

Precisamos parar de enxergar a maternidade como o fim da carreira de uma mulher. Nós podemos ser mães e continuar tendo sonhos, objetivos e uma carreira de alto nível. Cada mulher vai encontrar o seu próprio caminho e o seu tempo, e isso precisa ser respeitado. Também acho importante não criar uma pressão para que a mulher volte rapidamente ao corpo ou à performance de antes. Estou vivendo esse processo no meu ritmo, entendendo os limites do meu corpo e, ao mesmo tempo, descobrindo novas possibilidades.

Tati, Bia Rose e Jessé Mendes

Você esteve na etapa de Saquarema da WSL em junho como wildcard e tem o retorno ao Championship Tour em 2027 pela frente. Como está sendo construir esse caminho de volta e quais são hoje as suas principais metas no surfe?

Está sendo um processo muito especial e também de muita dedicação. Em Saquarema, pude sentir novamente a energia de uma competição e entender como meu corpo e minha mente estavam respondendo depois da maternidade. Desde então, tenho trabalhado bastante para construir essa volta com calma e da melhor maneira possível. No Centro de Treinamento do COB, passei por testes de fisiologia, biomecânica, preparação física e mobilidade, além de consultas médicas e nutricionais. Tenho recebido muito apoio do Comitê e de todos os profissionais que estão me acompanhando nesse processo. Também estou surfando algumas vezes por semana, aos poucos, e retomando o ritmo.

Além do retorno ao mundial, que vai acontecer ano que vem, tenho o sonho de tentar conseguir me classificar para a minha terceira Olimpíada. Com a Bia, sinto que estou forte física e mentalmente e, principalmente, muito feliz por tê-la ao meu lado, então essa nova fase me trouxe uma motivação diferente e quero levar isso comigo para dentro d’água, para conseguir realizar meus sonhos na carreira.

Como está estruturada a sua preparação física e técnica para esse retorno? O treinamento mudou depois da maternidade? Existe alguma preocupação ou cuidado específico que passou a fazer parte da sua rotina?

Mudou bastante. Depois da maternidade, passei a ter ainda mais atenção ao meu corpo e aos sinais que ele me dá. O treinamento está sendo construído de forma gradual, respeitando cada etapa da minha recuperação e buscando recuperar força, mobilidade e resistência. Tenho uma equipe de profissionais me acompanhando de perto, com avaliações e orientações para que eu possa evoluir com segurança e no tempo certo, respeitando cada etapa.

A gravidez e a maternidade também provocam muitas mudanças na relação da mulher com o próprio corpo. Como foi, para você, olhar para o seu corpo nesse período e aprender a reconhecer uma nova versão de si mesma como atleta?

Meu corpo mudou completamente durante a gravidez e, depois que a minha filha nasceu, precisei reaprender a entendê-lo e a confiar nele novamente. No começo, acho que existe uma expectativa de voltar a ser exatamente como você era antes, mas percebi que não funciona dessa forma. Neste processo, é preciso reconhecer tudo o que o seu corpo foi capaz de fazer e construir uma nova relação com ele. Estou descobrindo uma nova versão de mim como atleta, e sinto que ela é ainda mais forte.

Hoje, quando você pensa em voltar ao circuito mundial em 2027, o que mais te motiva?

O que mais me motiva é saber que ainda tenho muito para viver e conquistar dentro do surfe. Além disso, poder viver tudo isso com a minha filha ao meu lado traz ainda mais motivação. Quero que a Bia cresça vendo a mãe correr atrás dos seus sonhos, se dedicar ao que ama e, ao mesmo tempo, estar presente na vida dela. Acho bonito poder mostrar, através da minha experiência, que a maternidade não precisa significar abrir mão dos nossos objetivos. Podemos encontrar uma forma de viver essas duas coisas juntas.

 

Fotos: Tauana Sofia

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