Nos arredores da Cidade do Cabo, quatro regiões: Stellenbosch, Franschhoek, Paarl e Constantia desenham um roteiro que vai muito além das degustações. Cape Winelands, como também são conhecidas, formam a principal região produtora de vinho da África do Sul. São vinhedos cercados por montanhas, propriedades históricas, restaurantes de alta gastronomia e diferentes expressões de um terroir que ajudou a colocar os vinhos sul-africanos no mapa mundial.

Stellenbosch: tradição que se reinventa

Fundada em 1679, Stellenbosch é a segunda cidade mais antiga da África do Sul e o coração histórico de sua produção vinícola. São mais de 150 vinícolas espalhadas por uma paisagem de montanhas, vales e solos diversos, com destaque para Cabernet Sauvignon, Chenin Blanc e Pinotage, uva que se tornou símbolo da identidade vinícola do país.

Entre os nomes que merecem atenção estão Delaire Graff, Neil Ellis e Meerlust. Já a Oldenburg Vineyards, no vale de Banghoek, impressiona pela beleza da propriedade e pela produção mais exclusiva. Entre seus rótulos ícones estão o Stone Axe Syrah e o Per Se Cabernet Sauvignon.

Para quem visita as Winelands, minha sugestão é fazer de Stellenbosch a base da viagem e, se possível, dormir em um hotel instalado em uma vinícola. Acordar entre os vinhedos, tomar café da manhã diante das montanhas e terminar o dia com uma taça produzida na própria propriedade é transformar a hospedagem em parte da experiência.

Franschhoek: um pedaço da França no Cabo

A cerca de 45 minutos da Cidade do Cabo, Franschhoek tem outro ritmo. O nome significa “canto dos franceses” e reflete um pouco da herança francesa do século XVII. Foi ali que conheci a magnífica Babylonstoren, uma das propriedades mais emblemáticas da região. A fazenda do século XVII preserva a arquitetura Cape Dutch e tem como protagonista um jardim dividido em diferentes áreas de cultivo, de onde saem ingredientes para a cozinha da propriedade.

Na vinícola, tradição e experimentação caminham lado a lado, com ânforas, barricas e fermentadores de cimento participando da produção. A degustação passa por uma seleção ampla de rótulos, entre Chenin Blanc, Viognier, Sémillon, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Shiraz e o emblemático Babel Red.

É difícil não perceber ali uma filosofia que se repete pelas Winelands: o vinho começa muito antes da garrafa e continua muito depois dela, à mesa.

Paarl: a força do terroir sul-africano

Em Paarl, a atmosfera muda. A região revela uma África do Sul mais ligada à agricultura e à escala de produção, sem perder a beleza das montanhas e dos vinhedos.

Shiraz, Cabernet Sauvignon, Pinotage, Chenin Blanc e Chardonnay estão entre as variedades de destaque, em uma paisagem marcada pela diversidade de solos, altitudes e exposições solares.

Uma parada especialmente interessante é a Fairview Wine and Cheese, onde a degustação em seis etapas combina os vinhos da propriedade aos queijos artesanais produzidos ali, muitos deles de leite de cabra. Uma experiência que traduz, de forma quase literal, a ideia de terroir: provar o lugar através do que ele produz.

Constantia: quando o vinho entra para a história

Se Stellenbosch representa tradição e Franschhoek traduz charme, Constantia guarda uma história quase mítica.

É ali que está Groot Constantia, que produz o lendário Grand Constance, considerado o vinho mais antigo da África do Sul e reverenciado na época de Napoleão Bonaparte e Frederico II da Prússia, que estavam entre os clientes da vinícola. O vinho é produzido a partir de uvas Moscatel amadurecidas ao sol nas videiras, prensadas, fermentadas e envelhecidas em barris de carvalho.

A passagem por Constantia pode terminar no Chefs Warehouse Beau Constantia, restaurante instalado em uma das áreas mais altas da região, onde um menu degustação em pequenas etapas acompanha uma das vistas mais bonitas das Winelands.

Uma viagem que começa na taça

Depois de atravessar Stellenbosch, Franschhoek, Paarl e Constantia, fica claro que as Cape Winelands não são apenas um destino para quem gosta de vinho. São uma maneira de entender a África do Sul por seus sabores, por sua história e por sua paisagem. Cada região conta uma parte diferente dessa narrativa, da tradição de Stellenbosch ao charme francês de Franschhoek, da força agrícola de Paarl à memória quase aristocrática de Constantia.

No fim, talvez seja essa a melhor definição para a viagem: nas Cape Winelands, é possível não apenas beber um vinho, mas fazer uma imersão na história da África do Sul.

 

Fotos: Arquivo Pessoal

VOCÊ TAMBÉM PODE GOSTAR

Instagram

Twitter