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Maria Klein – Foto: FREDERICONCEPTUAL

Rajadas de vento, chuvas torrenciais, o peso das árvores caindo, estradas bloqueadas e interferências sucessivas na vida não são mais exceções na vida moderna. Essas ocorrências podem ser esperadas como parte da paisagem da vida na maioria das áreas do mundo. O que é alterado na superfície do mundo não se limita ao meio real. Atravessa o corpo, chega à mente e reestrutura fundamentalmente a maneira como existimos no mundo.

Tenho observado um aumento constante nas queixas sobre inquietação difusa, dificuldades de sono, irritabilidade, fadiga persistente e períodos prolongados de alerta na clínica. Em muitos casos, a pessoa não relaciona imediatamente esses estados ao contexto ambiental. O sofrimento se apresenta como a sensação de que não há explicação aparente quando, na verdade, é parte de uma instabilidade maior ao seu redor.

Essa série de experiências recebeu o título de ecoansiedade ou ansiedade climática. É uma resposta psicológica a uma situação percebida como imprevisível, ameaçadora para alguns, não apenas em um evento específico, mas como um risco permanente para a vida. Não é um diagnóstico, mas simplesmente uma forma de nomear como tentamos lidar com um ambiente que perdeu sua estabilidade constante.

A previsibilidade sempre ocupou o centro da vida humana, porque a natureza cíclica das estações, a permanência do lar, a estabilidade das ruas e a continuidade das rotinas ao longo do tempo permitem que a mente estabeleça uma base intrínseca que sustenta a existência. Quando essa base enfraquece, algo muda dramaticamente. O cérebro deixa de repousar, e o sistema nervoso permanece em alerta máximo para o perigo.

Uma das maiores mudanças que noto está no sentido de lar. Por bastante tempo, o espaço doméstico era sentido como um refúgio de proteção. Hoje, somos inundados com imagens de casas destruídas, afogadas pela água ou atingidas pelo vento. Essa circulação impacta a fantasia de abrigo. Mesmo dentro de casa, alguns dizem sentir-se expostos, como se a casa não fosse mais um lugar completamente protegido.

Do ponto de vista da psicologia, é a capacidade de imaginar o amanhã, mesmo que minimamente, que mantém a segurança viva. Não é ser capaz de prever o futuro, mas de imaginá-lo. O desempenho dessa função é prejudicado por uma sucessão de eventos extremos. O tempo é sentido como mais curto, tumultuado, difícil de imaginar. Forma-se uma ameaça difusa de fundo que permanece ativa mesmo sem ocorrências severas.

Esse medo pode ser organizado de maneiras particulares em torno de certos objetos. Há medos intensos de tempestades, ventos, trovões, relâmpagos, tornados, furacões, ciclones. Esses cenários podem se aproximar da área de fobias específicas, como lilapsophobia, relacionada a tornados e ciclones, ou ceraunofobia, relacionada a trovões e relâmpagos. O fenômeno externo atua como um gatilho direto para as respostas de alarme.

Há também sofrimento não apenas como medo, mas como perda. Perda da paisagem familiar, perda do território familiar, perda de um território que sustenta uma história pessoal. Esse tipo de experiência foi chamado de solastalgia, uma espécie de dor e mal-estar causados pela transformação do lugar de origem primário. Não se trata apenas do espaço se transformando. Algo da identidade derivada desse espaço também é impactado.

Nomear o que se sente é uma parte apropriada do cuidado psíquico. Quando alguém pode dizer “estou com medo porque o lugar é instável”, a sensação não é apenas física ou dispersa. Ganha uma forma simbólica. Nomear não apaga o sofrimento, mas cria um contorno interno. Oferece à imaginação uma maneira de organizar o que antes parecia existir sem forma.

Também é crucial distinguir responsabilidade de onipotência. Ver o quão grave é a crise ambiental não significa que alguém deva carregar o ônus de resolvê-la sozinho. Pequenos gestos no meio da vida diária podem manter o senso de participação e conexão interna. Eles não resolvem a crise mundial, mas preservam nossos sentidos de pertencimento e ação.

O lugar de compartilhamento também é central. Falar sobre como cada indivíduo experimenta essas transformações alivia o isolamento. O sofrimento silenciado tende a crescer. O sofrimento que pode encontrar palavras e ouvidos busca com mais frequência possibilidades de elaboração.

Eventos extremos também minam a fantasia de ser a maior e mais gloriosa criação do universo, a ideia da superioridade da humanidade sobre o selvagem. Esse é o confronto que gera choque. Ao mesmo tempo, abre espaço para um relacionamento mais intencional, capaz de reconhecer limites, interdependência e senso de pertencimento.

Talvez um dos deveres psíquicos desta era seja aprender a estar atento às nossas próprias fragilidades sem desmoronar. Reconhecer que a melhor saúde mental possível hoje não está mais enraizada na ilusão de controle, mas na criação de conexões, significado e presença, mesmo quando as coisas dão errado, com alguma medida de vínculo, ainda que não haja plena compreensão.

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