Você já percebeu como uma única opinião pode mudar a maneira como enxergamos alguém que amamos?

Uma conversa de família, um comentário no grupo de amigos, uma discussão sobre as eleições. De repente, aquela pessoa com quem dividimos tantas histórias parece se transformar em alguém que já não reconhecemos.

E tudo o que sabemos sobre ela fica em segundo plano diante de uma única diferença.

O que me chama a atenção não é apenas a polarização política. É o quanto estamos vivendo de guarda levantada, prontos para responder, justificar, defender nossas certezas. Como se discordar significasse necessariamente estar em lados opostos da vida.

E existe uma contradição interessante nisso tudo. Nunca tivemos tanto acesso a práticas de meditação, respiração, autoconhecimento e regulação emocional.

Mas será que estamos desenvolvendo, na mesma medida, nossa capacidade de conviver?

Quando o corpo entra na conversa

Há mais de vinte anos investigo a consciência aplicada à vida, e uma das coisas que mais me interessam é observar a distância entre aquilo que compreendemos e aquilo que conseguimos viver.

Podemos acreditar profundamente no amor, na paz e no respeito às diferenças. Mas basta alguém contrariar uma convicção importante para percebermos como nem sempre conseguimos sustentar esses valores.

Eu também conheço esse movimento. A vontade de explicar meu ponto de vista antes de realmente escutar o outro.

E acho importante reconhecer isso, porque ninguém se torna imune às próprias reações simplesmente por estudar consciência.

Quando interpretamos uma situação como ameaçadora, nosso sistema nervoso pode entrar em alerta. A respiração muda, os músculos se contraem, nossa atenção se concentra no que parece representar perigo.

Nesse estado, fica mais difícil perceber nuances. E o outro, com toda a sua complexidade, pode acabar reduzido àquilo que nos contraria.

Mas aqui existe algo que considero fundamental: nem toda diferença é uma ameaça, embora nosso corpo possa reagir como se fosse.

O equilíbrio não acontece apenas dentro de nós

As antigas tradições do yoga descrevem dois canais sutis de energia, Ida e Pingala, associados simbolicamente às narinas esquerda e direita. Um representa a qualidade lunar, mais receptiva e introspectiva; o outro, a qualidade solar, mais ativa e expansiva.

A respiração alternada entre as narinas é uma das práticas tradicionais utilizadas para buscar equilíbrio entre essas forças.

Gosto dessa imagem porque ela nos lembra que equilíbrio não significa eliminar um dos polos. Existe uma sabedoria em permitir que forças diferentes participem de uma mesma organização.

Não se trata de uma explicação científica para os conflitos humanos. É uma maneira de olhar para eles.

E isso me leva a uma pergunta: por que tentamos tantas vezes encontrar paz fazendo desaparecer aquilo que nos contraria?

A ciência também oferece uma perspectiva interessante. Pesquisas sobre corregulação mostram que nossos estados emocionais e fisiológicos são influenciados pelas relações.

A presença de alguém em quem confiamos, uma voz acolhedora ou uma interação segura podem nos ajudar a lidar com o estresse.

Ou seja, não é apenas o nosso equilíbrio que influencia a qualidade das relações. A qualidade das nossas relações também participa do nosso equilíbrio.

Essa compreensão muda muita coisa.

O que ainda falta ao mercado de wellness?

Hoje podemos acompanhar nosso sono, medir a variabilidade cardíaca, praticar respiração guiada, meditar e participar de retiros.

São recursos valiosos, e muitos deles possuem benefícios estudados pela ciência.

Mas eu me pergunto se não estamos dedicando mais atenção à maneira como nos sentimos individualmente do que à maneira como fazemos o outro se sentir na nossa presença.

Porque existe um repertório que nenhum aplicativo consegue desenvolver por nós: aprender a escutar sem preparar uma resposta, sustentar uma conversa desconfortável, pedir desculpas, reconhecer nossos limites e continuar capazes de enxergar a humanidade de quem pensa diferente.

Em 2023, um relatório de saúde pública dos Estados Unidos chamou atenção para o papel fundamental da conexão social na saúde.

E há algo profundamente humano nessa constatação: precisamos uns dos outros não apenas para compartilhar a vida, mas também para encontrar segurança dentro dela.

É por isso que acredito que o futuro do wellness precisa incluir mais experiências de convivência, pertencimento e afeto.

Não apenas práticas para nos sentirmos melhor sozinhos, mas espaços onde possamos experimentar o que significa estar com o outro sem precisar nos defender o tempo inteiro.

Isso não significa concordar com tudo. Existem limites que precisam ser respeitados, injustiças que precisam ser enfrentadas e valores dos quais não queremos abrir mão.

Mas podemos defender aquilo em que acreditamos sem transformar automaticamente a diferença em separação.

A capacidade de continuar em relação

Tenho aprendido, nas experiências que conduzo, que o equilíbrio não é simplesmente um estado de calma.

É uma capacidade que desenvolvemos para permanecer presentes à vida, inclusive quando ela não acontece como gostaríamos.

E talvez uma das expressões mais bonitas dessa capacidade seja conseguir estar diante de alguém que pensa diferente de nós sem perder a curiosidade por quem aquela pessoa é.

Afinal, quantas vezes estamos tentando convencer alguém quando, no fundo, o que mais desejamos é ser compreendidos?

A gente está precisando de mais encontros onde não seja necessário vencer uma discussão para sentir que existe lugar para nós.

De mais conversas nas quais o afeto não dependa da concordância.

De mais espaço para reconhecer que ninguém cabe inteiramente dentro de uma opinião.

O mundo não precisa pensar da mesma maneira para que a gente volte a se encontrar.

E, depois de um domingo de tantas diferenças, fico pensando em quantas pessoas nós nos afastamos não porque deixamos de amá-las, mas porque já não sabemos como estar perto quando pensamos diferente.

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